mineral

Quero a mudez das rochas, essa paciência antiga,
   despir a carne, o nervo e sempre vã inquietação.

Ser apenas a substância que ao mundo se liga,
   sem peso de fôlego, mas com a força do chão.

Minha suprema ambição é o repouso do granito,
   impassível presença que o tempo não consome,

trocar esse grito humano, frágil e aflito,
   pela paz de quem não precisa de nome.

Não volto à terra por castigo ou sorte adversa,
   mas pelo desejo que em mim longo se fez:

ser a raiz, o estrato, a densa e muda esfera,
   passar a ser a voz da terra, de uma só vez.

Pois no dia em que meu corpo nela se dissolva
   e minha voz se funda em seu eco profundo,

então serei mais do que alguma vez pude dizer,
   serei a própria voz que alimenta o mundo.

Mais do que o verso escrito ou a fala passageira,
   vale a verdade do barro, a firmeza do cristal:

a minha palavra final será poeira,
   a glória de ser, enfim, um mineral.

ler mais...

o caderno obscuro

a deusa

vertigem

peça a peça

estupidez II

devoção

o navio de vidro

perplexidade