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auto-ajuda

Não ofereças a voz ao silêncio. Há quem queira reduzir-te ao eco das certezas,   vestir-te com nomes que não escolheste. Mas não és a legenda que tatuam na pele. És a palavra ainda a crescer - caminho que a tua medida traça. Não aceites o lugar de vítima –  há um território à espera de descoberta. Haverá mãos apontadas,                                   juízos apressados, olhares que tentam cegar o horizonte. Deixa-os passar. Nenhum deles conhece a força secreta que te anima. Ergue-te. Olha-te de frente. Desenha a cara na página em branco.  A vida não acasala com entradas de dicionário.

Alma

nós - que temos almas - morremos mais vezes -            do que o corpo pode  imaginar             quando o silêncio                   aprende a amar         o alfabeto do espelho    nós - que temos almas - vivemos como se   a natureza nos fizesse viver morrendo morrer vivendo       Não tão vitalmente - mas d´primordial arte  como um interruptor            da consciência essencialmente                                   verdadeiro

haicais intemporais

I Lobo de aço
 planta a voz no campo
 o trigo geme Dragão de fogo devora rios e pontes
 momentos e dor Noite de ferro
 Muda a luz em trevas morre a canção II Brisa no vale
 lava rios de ira canta a manhã  Lago sereno
  pomba branca em céus desperta o sol  Após a noite
 orvalho beija o chão renasce a paz

a presença

  Tudo o que não fomos 
permanece. Não é sombra obediente:                uma silhueta imóvel
 que olha dentro. A cada novo gesto,
   o gesto recusado ergue-se,                 a cada palavra dita,
 a sílaba afogada no silêncio. Vivemos cercados 
por essa multidão invisível: caminhos abandonados,
     amores mal suportados,       cidades que recusaram      o peso que eleva o passo. E nenhum deles nos julga.   Limitam-se a contemplar o estreito território do ser, a minúscula estrela extinta
  cuja luz encontra os olhos.   Talvez sejamos o contrato depois de breve transacção entre o escolhido                            e o perdido, entre a porta varada e as cem portas cerradas. E tudo o que não fomos
  fixa em nós o olhar paciente...

a caverna

Luz na parede, sombras.               E bastava. Depois um olhar  voltado para trás. A dor da luz.            O caminho. O mundo.    Então percebeu: a sombra    não era a árvore,      nem o pássaro,            nem o céu. Voltou para contar. Mas quem vive a sombra chama cegueira             à claridade.

o rebanho

queres uma vida fácil? fica com o rebanho acorda quando acordam        bebe quando bebem             ama o que amam         odeia o que odeiam acorda               bebe                         ama                                 odeia é simples ninguém (nunca)            te pergunta nada e quando finalmente te perderes               entre milhares de rostos               entre milhares de vozes             entre milhares de passos chama a isso paz repete - paz até que a palavra   soe como uma medalha    no peito de um homem que desistiu de si mesmo e então quando já não houver     ...

banalidades

Uma percentagem considerável das pessoas que encontramos na rua são pessoas vazias por dentro, ou seja, já estão mortas. Felizmente, não vemos nem sabemos isso. Se soubéssemos quantas pessoas estão realmente mortas e quantas dessas pessoas mortas governam as nossas vidas, enlouqueceríamos de horror . George Gurdjieff Rostos na manhã, vazios cruzam a luz,
 sombras respiram.  Um engano antigo; máscaras bebem a luz e as sombras sorriem. Mortos por dentro,
 governam cada mundo; mas ninguém os vê.

Zé Ninguém

Zé Ninguém chega sempre à mesa como quem chega ao centro do mundo, puxa a cadeira,                                mede os rostos, escolhe o ouvido mais disponível. Fala. Não é preciso muito: um nome,                      um defeito,  uma estória sem dono   que oferece em troca como moeda pequena. Fala dos outros para que o silêncio não fale dele. (O homem que se levantou há pouco ainda deixou o calor no assento, e já é assunto,                   já perdeu a sombra, já foi transformado em palavra na boca de quem ficou). Zé Ninguém mastiga devagar as vidas alheias. De vez em quando interrompe a frase      e olha em redor.   Não olha para ver. Olha para ser visto. Há sempre alguém a uma mesa próxima, um ouvido distraído, um copo que tarda em beber, uma cabeça que...