o estado público das coisas
Há um ruído que não vem da rua.
Vem
de dentro das paredes,
das telas acesas,
das bocas que
aprenderam
a falar antes de pensar.
Não é o grito do ignorante.
É mais fundo.
É
o momento em que o homem,
ao descobrir que nada sabe,
decide
que isso basta.
Então
levanta a sua ignorância
como uma bandeira,
entra em parada na
praça
e pede que a praça se ajoelhe.
Já
não há vergonha
em não compreender.
Há orgulho.
Já
não se esconde a pobreza
de espírito:
veste-se de
opinião,
ganha uma voz,
um rosto,
cem rostos,
oito bilhões de rostos.
A
multidão descobriu
que pode transformar o espelho
numa
lei.
E
tudo o que exige trabalho
parece suspeito.
Um
livro fechado
é mais útil que um livro lido.
O
silêncio,
uma forma de arrogância.
A
dúvida,
uma fraqueza.
A
delicadeza,
um luxo.
Mas
talvez a tragédia
não seja a vulgaridade.
Talvez seja isto:
a
vulgaridade já não sabe
que é vulgar.
Ou pior:
sabe.
E orgulha-se disso.
Há uma pobreza que não pede pão.
Pede aplauso.
E
quando o recebe,
cresce.
Ocupa
as cadeiras,
os púlpitos,
as praças,
as conversas,
os pequenos espaços
interiores
onde outrora cada consciência
ganhara a causa de estar sozinha.
Até
que já não há silêncio
que não seja preenchido.
Então,
uma porta bate.
Uma lâmpada apaga-se.
Um
livro fica aberto
sobre uma mesa vazia.
Ninguém regressa.
A praça continua a gritar.
Mas
já não há ninguém
para lhe devolver o eco.
E, pela primeira vez,