não sou eu , dizes - quem escreve , como se a mão fosse um rumor do corpo, o abismo apressado não sou eu, dizes - quem escuta, o ouvido no pulso, o verso sem nome no caderno obscuro não sou eu, dizes - quem faz tremer os sonhos onde o chão líquido aprende a cair acordas - a noite intacta, pesada, um animal deitado sobre o peito gritar? O grito esqueceu- se de ti dizes - não há palavras e logo depois há - mas quem encontra letras num quarto submerso? e então escreves esses esp...
ela não chega, condensa-se nenhum passo, nenhuma heráldica, apenas a lenta insistência da maré contra o crânio a palidez acumula-se à beira do pensamento, onde a linguagem se desfaz em gesso e ossos sente-a primeiro a subtracção: calor rarefeito, cor drenada, nomes escorregando como peixes da rede para a boca depois começa a aritmética prateada: cresce, diminui, desaparece, regressa ela guarda a sua biblioteca na medula cada mito uma vértebra, cada amante um fóssil de devoção impresso na longa paciência do seu corpo os homens chamaram-lhe misericórdia os homens chamaram-lhe perecimento construíram altares a partir dos seus erros, nomearam esses ecos uma epifania mas ela não é dádiva nem fim ela é a gramática da recorrência, a si...
Quando o astrónomo dissertava, o mundo tomou a forma de um cálculo. As estrelas, livres outrora, em respirações longínquas, foram empilhadas em prateleiras de supermercados, domesticadas por números como degraus enfileirados em escadas. Sentava-me entre outros corpos inclinados na direcção da voz que dissecava o pulsar do eco das estrelas. O quadro branco em que escrevia, tornara-se um campo de batalha, onde a noite era traduzida em sinais e o mistério perdia a qualidade intraduzível. O aplauso final surgiu como uma confirmação de que se tratara a matéria do modo incorrigivelmente certo, de que o cosmos cabia inteiro na linguagem que soprava um alfabeto sem vertigem e qualquer súbito espanto. Mas dentro de mim algo começou a falhar como um instrumento desafinado perante uma pauta demasiado exacta. Um cansaço sem causa tomou conta dos meus ossos, uma espécie de febre silenciosa, como se o excesso de clareza me tivesse roubado o ar. Não o ar que pesava, mas o modo como se fechava sobre ...
Dizem-nos: das trevas fez-se luz. E houve uma manhã - talvez. Mas a manhã não nos pertenceu. Falaram-nos de uma luz inteira, como se a inteireza fosse possível num século de espelhos rachados. Assim pensámos. Assim nos ensinaram a pensar entre anúncios luminosos e ruínas de ossos discretos. Mas quando a luz nasceu (se nasceu: fragmentou-se): não em constelações sublimes, mas em lâmpadas de tecto de corredores administrativos. Basta olhar para o céu: as trevas continuam. Não como ausência, mas como afirmação do método. Medem a dança das luzes com a paciência mineral das eras. (outrora chamámos a isso destino). Outrora como agora, marionetas no carrossel do jogo. A música é alegre ( convém que s...
A estupidez tem mãos limpas. Chega de sapatos engraxados. Pede licença, sorri para as crianças, traz uma travessa para a mesa do domingo. Não anuncia incêndios. Diz: não sabia, não pensei, ninguém me explicou a dimensão, o sentido, a consequência. Enquanto isso, as plantas secam nos vasos, os peixes aparecem de barriga branca junto às margens, alguém aprende a baixar a voz para caber dentro do medo. A maldade, imaginávamos, teria dentes visíveis e agudos, o prazer inequívoco da ferida. Mas não. Quase sempre usa óculos gastos sobre papéis, carimba formulários, repete frases como quem dobra lençóis. Não foi por ódio, dizem. Foi distracção. Preguiça da dúvida. Fome de obedecer. O conforto macio de deixar que o pensamento seja da autoria de outros. No fim, os resultados alinham-se na luz fria da cozinha: os pratos partidos, as portas vazias, os nomes apagados silenciosamente da memória dos vivos. Os senhores do mundo, esses contadores de estórias sem piedade, negam medir intenções. Co...
Quero a mudez das rochas, essa paciência antiga, despir a carne, o nervo e sempre vã inquietação. Ser apenas a substância que ao mundo se liga, sem peso de fôlego, mas com a força do chão. Minha suprema ambição é o repouso do granito, impassível presença que o tempo não consome, trocar esse grito humano, frágil e aflito, pela paz de quem não precisa de nome. Não volto à terra por castigo ou sorte adversa, mas pelo desejo que em mim longo se fez: ser a raiz, o estrato, a densa e muda esfera, passar a ser a voz da terra , de uma só vez. Pois no dia em que meu corpo nela se dissolva e minha voz se funda em seu eco profundo, então serei mais do que alguma vez pude dizer, serei a própria voz que alimenta o mundo. Mais do que o verso escrito ou a fala passageira, vale a verdade do barro, a firmeza do cristal: a minha palavra final será poeira, a glória de ser,...
Para Sylvia Plath lâmina doméstica a arder por dentro. O pássaro precisa de aprender a voar como quem aprende a usar uma faca na cozinha demasiado branca da manhã. Tudo brilha com dentes: o copo, o relógio, a boca da mãe. Nasceu com um coração de relógio partido, tic-tac de sangue contra a gaiola das costelas. Dizem-lhe: tenta outra vez, o céu é um prato limpo. Mas o céu tem nódoas que não saem. Treina no quintal das coisas úteis: o balde, a corda, a camisa a secar como um fantasma dócil. Cada impulso é uma carta sem selo endereçada a um deus com auscultadores. O pássaro precisa de aprender a voar e o mundo oferece manuais de boas maneiras: não grites, não sangres, sorri com a boca fechada como as bonecas que sabem morrer. Debaixo das penas mora uma casa em chamas. As paredes perguntam pelo jantar, o espelho penteia-lhe o medo com dedos de enfermeira cansada. Há sempre alguém a medir-lhe a sombra. Então cresce um centímetro - o bastante para ouvir os si...
A memória é um gargalo estreito, um caminho de terra que termina onde o sal começa. Quando era pequena , o mundo tinha a segurança das coisas sólidas, até ao dia em que o carro parou diante do impensável. Conduzimos apenas uma vez até ao oceano , uma incursão única num território sem mapa. Imóvel no banco de trás, a criança tinha medo desse tipo de água , não a que se deixa medir por garrafas mas dessa massa azul - músculo que se move s em intenção, sem perdão, ocupando o vácuo. O mar não era uma paisagem. Era uma anatomia que não conseguia nomear. E havia o peso desse horizonte , uma linha cortante que não prometia nada além de si mesma. Um abismo horizontal que tentava fechar dentro do olhar como quem tenta f orçar um navio de velas abertas a entrar dentro de uma garrafa. O medo era esse: a impossibil...
(a suspensão entre o saber & o não saber não é simples ignorância é o momento em que a realidade se torna opaca - o olhar que confronta o inesperado a contradição ou o excesso de sentido fazendo vacilar certezas nesse espaço a razão hesita e a linguagem tropeça o sujeito experimenta a forma de um estranheza essencial: algo que não se encaixa na lógica corrente e ainda não há nome para o que escapa ao rótulo (e de repente o peixe descobre a água o mapa desaprende o território o zero dança redondo como um deus e o pássaro hesita no ar não porque o vento mudasse mas porque o voo pergunta: voar para qu...