toda a palavra

Toda a palavra é uma pedra lançada ao rio. Antes do círculo que desenha na água, há uma margem de onde partiu. Nenhuma palavra nasce do vazio. Traz pó dos caminhos, o sal das lágrimas, o fogo das inquietações. E quando se desprende dos lábios, já não pertence a quem a disse. É ave migratória. Procura outros céus, outros ombros, outros destinos. Toda a palavra tem uma causa e uma consequência. É semente lançada à terra escura. Nunca sabemos se dela nascerá um jardim ou uma floresta de espinhos. Mas também o silêncio não é ausência. O silêncio é um mar subterrâneo. Corre por baixo de conversas, escava grutas na alma, arrasta correntes invisíveis.

Todo o silêncio tem uma causa. Uma lua encoberta. Uma porta fechada por dentro. Um pássaro que perdeu o caminho do canto. E toda a consequência do silêncio é um eco sem voz.


Às vezes ponte.

Às vezes abismo.

Às vezes escudo.

Às vezes ferida.


Vivemos entre essas duas marés: a das palavras - barcos à procura de porto, a dos silêncios - oceanos dentro de uma gota. A vida talvez seja aprender que cada palavra transporta a tempestade e a colheita, cada silêncio guarda uma nascente ou um naufrágio.

ler mais...

o caderno obscuro

a deusa

vertigem

peça a peça

estupidez II

mineral

devoção

o navio de vidro

perplexidade