os cobardes

Os cobardes

raramente dizem:

tenho medo.

É uma verdade demasiado nua,
demasiado fria,
demasiado pesada
para os seus ombros.

Por isso,

constroem muralhas de palavras,
erguem sistemas de ideias,
fabricam princípios,

como quem fabrica máscaras.

Chamam prudência à renúncia.

Chamam sabedoria
ao silêncio cúmplice.

Chamam realismo
à desistência.

E cada recuo

recebe um nome mais belo
do que a própria fuga.

Os cobardes

são artesãos da justificação,

arquitectos pacientes
de álibis morais,

escultores de razões
para não avançar.

Não fogem,

dizem que esperam
o momento certo.

Não se calam,

dizem que evitam
conflitos desnecessários.

Não traem,

afirmam apenas
que se adaptam
às circunstâncias.

Assim,

pedra após pedra,
argumento após argumento,

levantam o monumento
onde escondem a própria sombra.

Mas a verdade

permanece.

Sentada à porta do tempo,

quieta,

à espera.

Porque sabe

que nenhum discurso
transforma medo em coragem,

nenhuma doutrina
converte fuga em dignidade,

nenhum aplauso
silencia a consciência.

A coragem

não nasce da ausência do medo.

Nasce quando alguém,

mesmo tremendo,

o encara.

E a cobardia,

por mais razões que acumule,
por mais bandeiras que desfralde,
por mais teorias que proclame,

continua a ser apenas isto:

o medo

que se disfarça

de virtude.

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