Mensagens

a tolerância

a tolerância (torna-se um crime)quando aplicada ao mal - diz thomas mann e o silêncio concorda sem concordar;pois há verdades)(que se dobram e há verdades que não - olha: uma mão que hesita é uma mão que já escolheu (o mal cresce onde a bondade esquece de ter dentes) & assim digo:não toleres o que devora o pequeno e o quieto pois o amor sabe quando dizer não  

toda a palavra

Toda a palavra é uma pedra lançada ao rio.  Antes do círculo que desenha na água, há uma margem de onde partiu.  Nenhuma palavra nasce do vazio.  Traz pó dos caminhos, o sal das lágrimas, o fogo das inquietações.  E quando se desprende dos lábios, já não pertence a quem a disse.  É ave migratória.  Procura outros céus, outros ombros, outros destinos.  Toda a palavra tem uma causa e uma consequência.  É semente lançada à terra escura.  Nunca sabemos se dela nascerá um jardim ou uma floresta de espinhos.  Mas também o silêncio não é ausência.  O silêncio é um mar subterrâneo.  Corre por baixo de conversas, escava grutas na alma, arrasta correntes invisíveis. Todo o silêncio tem uma causa.  Uma lua encoberta.  Uma porta fechada por dentro.  Um pássaro que perdeu o caminho do canto.  E toda a consequência do silêncio é um eco sem voz. Às vezes ponte. Às vezes abismo. Às vezes escudo. Às vezes ferida. ...

insubmissão

1 Questionar é levantar a cabeça diante da ordem 2 A curiosidade rasga uma pequena janela na parede do mundo e, por ela, entra o vento mais forte que nenhum deus tem poder de vetar 3 Toda questão traz consigo um desacordo 4 a criança que interroga   talvez seja a semente de um bravio rebelde 5 E o homem curioso, sem lema ou multidão, a forma mais pura de insubmissão

uma vida tranquila

   precisamos de uma sala cheia de livros não porque o mundo seja menos mundo mas porque há tardes que sabem mais do que                       cidades inteiras                          e uma página (virada devagar) faz um ruído maior            do que o virar dos séculos

a espera

estou sempre(à espera)de algo que aconteça -buraco em forma-de-mim na tarde e nada o preenche nada (quando algo deveria acontecer não acontece) ninguém chega nin guém parte (a porta é uma boca que se abre tanto como esquece) nada acontece o que é dizer: o relógio mantém o seu pequeno teimoso tique(tique)taque~ mentiroso as paredes continuam sendo paredes eu continuo sendo esta máquina-de-esperar que espera (não será isso também uma espécie de acontecer - o imendo ruído do nada, pressionado contra as minhas costelas como um pássaro que nunca decidiu ser pássaro) nin guém nin       guém nada: ainda estou aqui, o que é(talvez)a única coisa que alguma vez verdadeiramente              me aconteceu

a fome

If you pick up a starving dog and make him prosperous, he will not bite you. This is the principal difference between a dog and a man . Mark Twain deram ao cão um pedaço de carne depois deram-lhe uma casota                         um nome um lugar junto ao fogo o cão aprendeu  o silêncio         das coisas       sem compromisso - dormia à beira da porta como quem               vigia o mundo para que         ninguém roubasse     o pouco que era seu  o homem recebeu casa         chaves              espelhos   mesa comprida onde a fome       não cabia (mas a fome    quando desaparece   do estômago sobe  à cabeça) e o homem começou  a contar:     ...

a melhor obra

a melhor obra                  não é a que repousa  sob a luz tranquila de elogios nem a que atravessa o tempo sem levantar poeira - é a que observa          do outro lado da página  com os olhos de quem sabe o que falhámos dizer  a que chama pelo nome      antes de ser pensado escrevê-la é  aproximar a mão do fogo    aceitar a medida exacta da escala do nosso medo e quando terminamos        sentimos silêncio e nele a obra permanece - viva -             incómoda - terrível   como a criança              à espera de nos          embaraçar

Chuva

Há quem escute                            a chuva na alma, como quem ouve um tambor distante Cada gota é um nome, cada som um sussurro antigo                 Há quem caminhe à chuva e sinta o corpo lavar-se,                   a pele responde ao toque, o sentido aprende o ritmo                           um cântico sem letra E há quem apenas se molhe,                                        apresse o passo nas ruas,                                            feche o casaco ao vento,                        ...